Conferência de Apresentação do Patrono da Cadeira nº 3 da Academia de Artes, Ciências e Letras da Ilha de Paquetá, pronunciada pela Acadêmica Katia Machado Pino em Sessão Plenária em maio de 1998.

VIVALDO COARACY

DADOS BIOGRÁFICOS


VIVALDO COARACY nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 25 de novembro de 1882, filho de JOSÉ ALVES VISCONTI COARACY e CORINNA ALBERTA DE VIVALDI COARACY.
Seus primeiros quatro anos de vida passou na casa onde nascera, à Rua do Resende; mas em 1886, mudou-se com a família para Niterói, Icaraí, onde viveu até a morte dos pais, em 1892. Tinha nessa ocasião, apenas dez anos de idade.
V.Cy (sigla que adotou mais tarde para assinar seus artigos) fizera em casa com os pais os estudos primários. Quando estes faleceram foi matriculado como interno no Seminário São José durante dois anos e depois no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), concluindo os estudos secundários em 1900.
Durante a mocidade, passou quatro anos no Rio de Janeiro, iniciando-se na imprensa, entrando para a redação do CIDADE DO RIO, de José do Patrocínio. Nessa mesma época matriculou-se na Faculdade Nacional de Medicina e depois na Escola Militar da Praia Vermelha, da qual foi excluído após a revolta de 1904, partindo então para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre foi jornalista, formou-se em Engenheiro Mecânico-eletricista, seguindo logo depois para os Estados Unidos onde fez dois cursos de Especialização. Ao voltar a Porto Alegre foi chamado para lecionar como professor na Escola de Engenharia (onde se formara) e, mais tarde, designado como Diretor do Instituto de Eletrotécnica da referida Escola. Em 1920 partiu para São Paulo, onde trabalhou em empresas de eletricidade no interior do estado. Em 1926 abandonou definitivamente as atividades de engenheiro, voltando a dedicar-se exclusivamente à imprensa, ingressando na redação de O ESTADO DE SÃO PAULO.
De 1926 a 1932 permaneceu em São Paulo, dedicando-se ao jornalismo e à política, tomando parte ativa na Revolução Constitucionalista de 1932, sendo preso e exilado para Portugal nessa ocasião. Durante os meses de prisão escreveu o livro A sala da capela, depoimento sobre a permanência dos revolucionários paulistas na prisão que precedeu a deportação sumária.
De volta do exílio, em 1933, fixou-se no Rio de Janeiro, dirigindo a sucursal de O ESTADO DE SÃO PAULO, com as atribuições de correspondente político. Afastou-se do cargo quando, em 1941, o jornal foi confiscado e ocupado pelo então Interventor em São Paulo. Deste ano até 1946, colaborou no JORNAL DO COMMÉRCIO, do Rio de Janeiro e na FOLHA DA MANHÃ, de São Paulo. A partir de 1944 escreveu suas obras mais importantes. Em 1946, com a volta de O ESTADO DE SÃO PAULO a seus legítimos proprietários, pediu por motivos de saúde, que lhe fosse concedida aposentadoria do serviço ativo, passando à categoria de colaborador. Foi quando se recolheu à Ilha de Paquetá, escrevendo crônicas semanais para o jornal paulista e colaborando também, esporadicamente, com jornais do Rio.
Durante os anos de plena atividade na imprensa, seus trabalhos no jornal tratavam de assuntos vários, preponderando os de natureza técnica ou política. Mas desde a sua aposentadoria, porém, dedica-se quase que exclusivamente à crônica, gênero de sua acentuada preferência. A sigla V.Cy com que subscrevia a maioria de seus trabalhos tornou-se conhecida e familiar a muitos leitores paulistas.
V.Cy faleceu em plena atividade em 13 de junho de 1967, sendo enterrado no cemitério da Ilha de Paquetá.

OBRAS PUBLICADAS


Memórias:

A sala da capela. Rio de Janeiro, J. Olympio,1933.221p.

Todos contam sua vida.RJ., J. Olympio,1959.268p. (Prêmio do Instituto Nacional do Livro em 1959. Classe: Memórias).

Encontros com a vida. RJ. , J. Olympio, 1962.


Crônicas:

Zacarias.RJ. , J.Olympio, 1936.263p.

Couves da minha horta. RJ. , J.Olympio, 1949.281p.

O contador de histórias.SP., Melhoramentos,1950.281p.

Pôr-do-sol na ilha.RJ., J. Olympio,1952.321p.

Cata-vento.RJ., J.Olympio,1956.310p.

91 crônicas escolhidas.RJ., J. Olympio,1961.282p.


História:

O Rio de Janeiro no século 17. RJ., J. Olympio, 1944. (Coleção Documentos Brasileiros, 39).
-2ª ed. Revista e aumentada. RJ., J. Olympio, 1956.268p. (Coleção Rio 4 séculos, 6).

Memórias da cidade do Rio de Janeiro. RJ., J. Olympio, 1955.580p. (Coleção Documentos Brasileiros, 88) – PRÊMIO PAULA BRITO, de História em 1955.
-2ª ed. Revista e aumentada. RJ., J. Olympio, 1965. (Coleção Rio 4 séculos, 3).
-3ª ed. Belo Horizonte, Itatiaia e São Paulo, USP, 1988.

Paquetá, imagens de ontem e de hoje. RJ. J. Olympio, 1964.168p.
-2ª ed. Revista e aumentada. RJ., J. Olympio, 1965.266p. (Coleção Rio 4 Séculos, 4).

A colônia de São Lourenço e seu fundador Jacob Rheingantz.SP. Saraiva, 1957.161p.


Ensaios e assuntos técnicos:

Instrução técnica nos Estados Unidos. Porto Alegre, Escola de Engenharia, 1914.122p.

Electroquímica. Porto Alegre, 1917.

A viação férrea no Brasil. São Paulo, Associação Comercial de São Paulo, 1929.

Transportes marítimos. Relatório apresentado à Associação Comercial de São Paulo, 1929.35p.

Problemas nacionais. São Paulo, Sociedade Impressora Paulista, 1930.162p.

O caso de São Paulo. São Paulo, Liga de Defesa Paulista, 1931.163p.

O perigo japonês. Ensaio publicado no Jornal do Commércio. Rio de Janeiro, Distribuição J. Olympio, 1942.176p.


Ficção:

A rampa (romance). Porto Alegre, Livraria Americana, 1908.

Frida Meyer (romance). São Paulo, Editora Monteiro Lobato, 1924.258p.


Artigos dispersos sobre história do Rio de Janeiro:

Velharias cariocas; antigos trabalhos de engenharia (Fortificações, construções civis, agrimensura, cartografia, ruas e caminhos, aterros e drenagens, abastecimento de água, materiais de construção). Separata nº 71 da Revista do Club de Engenharia, Rio de Janeiro, outubro de 1940.

Rio, capital do Brasil. Microfilmando, Rio de Janeiro, 2 (6): 22-24, out/dez.1962.

A primeira tipografia. Microfilmando, 4 (15): 46-52, jan/mar. 1964.

O Rio de Janeiro no século XVI. Aconteceu, Rio de Janeiro, 11(125): 44-47, abril. 1964.

Capitães Governadores, 1564-1567. Aconteceu, 125: 44-47, abr. 1964.

O Rio de Janeiro no século 17. Aconteceu, 127: 22-29, 1964.

Governadores do Rio de Janeiro no século XVII. Aconteceu, 127: 36-41, 1964.

O Rio de Janeiro no século 18. Aconteceu, 130: 20-25, 1964.

Governadores e vice-reis no século XVIII. Aconteceu, 130: 42-48, 1964.

O Rio de Janeiro no século XIX. Aconteceu, 133: 22-27, 1964.

O Rio de Janeiro no século XX. Aconteceu, 137: 32-=41+ 61, 1965.

A Guanabara e suas ilhas. Rio, modéstia à parte. Suplemento especial de Seleções do Reader’s Digest, dezembro de 1964, p. 65-67.

Grandeza e decadência do açúcar no Rio de Janeiro. Brasil Açucareiro, Rio de Janeiro, 65 (3): 6-7, mar., 1965.

IMPRESSÕES PARTICULARES/EXPOSIÇÃO ORAL


A primeira vez que tive contato com Vivaldo Coaracy foi através de seu livro sobre Paquetá: Paquetá, imagens de ontem e de hoje. Procurava me informar mais sobre a história dessa ilha que eu tanto gosto. Conhecia alguma coisa através de outros livros que apontavam suas lendas. Fiquei surpresa ao descobrir um livro só sobre Paquetá, no meio de uma coletânea abordando a história do Rio de Janeiro (Coleção RIO 4 SÉCULOS). Num primeiro momento fiquei decepcionada, porque esse levantamento histórico “parecia” desmanchar na minha mente a Paquetá que vivi na adolescência. Mas, eu não conseguia parar de lê-lo. A narrativa sem complicação alguma, detalhes revelados sem mistérios, me fizeram chegar ao fim da primeira parte num tempo “record”. Percebi as referências históricas importantes que se desenvolveram através dos tempos e essa Paquetá descoberta, somou-se às das lendas e encantos que havia em meu coração. Na segunda parte desse mesmo livro, estavam contidas crônicas sobre a Ilha de Paquetá e foi aí que conheci o verdadeiro V.Cy. Nessas crônicas senti claramente a “alma” de Paquetá revelada, numa linguagem como se eu o estivesse ouvindo contar as histórias que se desdobravam nas letras ante meus olhos; de uma maneira simples, íntima, como se fôssemos velhos amigos conversando despreocupadamente: às vezes de forma engraçada, às vezes dramática, mas sempre verdadeira. Li sobre tipos que talvez pudessem ainda estar aqui. Histórias de vida escondidas atrás dos rostos. Fiquei imaginando se a qualquer momento um deles pudesse passar por mim; e, teria eu sensibilidade igual para percebê-lo? Talvez pelo tempo já tivessem partido, mas sendo substituídos por outros rostos, por outras vidas... Consegui apreender o modo reservado de vida de V.Cy mas, principalmente a sua sensibilidade ante a “alma” dessa Ilha. E, para quem se interessar, ela está literalmente revelada na crônica PAQUETÁ, a minha preferida e que me fez rir como há muito não o fazia. Esse foi meu primeiro contato, que provocou uma curiosidade enorme sobre este homem que escolhera vir morar aqui em Paquetá, assim como eu, assim como tantas outras pessoas com as quais tenho convivido.
“Nada acontece por acaso”, muitas pessoas dizem isso e cada vez mais eu passo a acreditar. Quando entrei para a Academia, o nome de Vivaldo Coaracy estava lá, na relação dos patronos e foi ele quem escolhi, como tinha que ser. E ao ser proposto o levantamento da vida dos patronos, tive a satisfação de entrar em contato com sua filha, Dna. Ada Coaracy. Olhando os jardins de sua casa na Praia Pintor Castagneto, Dna. Ada, em sua narrativa, passou-me não só o orgulho de filha mas a da amiga que foi de seu pai. A fala ágil, as histórias de vida se sucedendo, numa memória viva e plena, me fizeram perceber a herança de V.Cy em suas palavras. E, nesse dia, Dna. Ada apresentou-me a outra fase de vida de V.Cy.
Nas histórias que me contou,nos livros que me emprestou, está tudo registrado: V.Cy adotou o estilo da abreviatura que sua mãe utilizava; Corinna Coaracy assinava: C.Cy e foi uma pioneira escrevendo vários artigos para jornais e sendo correspondente de um jornal norte-americano; era uma pensadora, culta e perspicaz, totalmente inteirada com seu meio e seu momento político. Seu pai era crítico teatral. Seu avô materno, fundador de jornais, homem ativo, enfronhado com seu tempo e com uma história de vida fenomenal, delineada aos poucos por V.Cy, bem mais tarde e que está presente na série TODOS CONTAM SUA VIDA, da editora José Olympio.
V.Cy teve uma infância feliz mas perdeu seus pais cedo, aos dez anos de idade. Foi criado por um tio rígido e, mais tarde, seu padrinho (Dr. Licínio Cardoso, médico homeopata que tinha casa em Paquetá) praticamente o adotou e o ajudou em seus estudos. V.Cy formou-se em engenheiro mas sempre esteve ligado à imprensa e aí se percebe a herança sangüínea e o quanto aqueles anos felizes o marcaram. Trabalhou anos como engenheiro, fez especializações nos Estados Unidos e, ao voltar, tornou-se Diretor do Instituto de Eletrotécnica da Escola de Engenharia de Porto Alegre, onde se formara. Em 1920 mudou-se para São Paulo, onde trabalhou em empresas de eletricidade no interior do Estado. Mas em 1926 abandonou de vez a carreira de engenheiro para dedicar-se exclusivamente à Imprensa, ingressando no O ESTADO DE SÃO PAULO. Escritor sagaz, com uma escrita ágil que a todos contagiava, participou ativamente da política e na Revolução Constitucionalista de 1932. Suas análises dos fatos da época e o alcance que tinham seus escritos fizeram com que fosse preso e, após, exilado para Portugal. Na volta do exílio, fixou-se no Rio de Janeiro, mas continuou suas atribuições de correspondente político no mesmo jornal até 1941, quando este foi confiscado. Colaborou com outros jornais até 1946, quando se aposentou. Neste ano mudou-se para Paquetá com Dna. Ada. A Ilha já era sua velha conhecida, vinha sempre a passeios e quando tirava férias. Mudou-se para “descansar”, devido a problemas particulares e de saúde; mas quem tem um dom tão bonito não consegue parar. Começou então sua produção de crônicas (seu gênero preferido). Empenhou-se em fazer pesquisas e anotações sobre a história desta ilha, que mais tarde ampliou e transformou no livro citado ao início. Aqui, em Paquetá, ele era muito procurado por pessoas que vinham de fora fazendo pesquisas sobre seus escritos. Foi quando Paquetá começou a descobrir V.Cy; aquele senhor discreto e reservado mas muito espirituoso e engraçado com aqueles que tinham a oportunidade de conviver mais intimamente com ele. Cada pessoa tem um temperamento e uma história de vida que a leva a agir de determinada maneira. V.Cy foi muito questionado por não participar mais ativamente da vida da Ilha de Paquetá. Mas quem se interessar em ler suas crônicas, seus livros, conseguirá perceber o quanto ele estava atento a tudo o que ocorria; que a sua contribuição é a mais significativa possível, pois perpetua Paquetá no registro das Letras.
Em 13 de junho de 1967, falece V.Cy, em plena atividade, sendo enterrado na terra que escolhera morar e onde recomeçara sua vida numa fase altamente produtiva: a Ilha de Paquetá.

BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA


COARACY, Vivaldo. O Rio de Janeiro no século 17.José Olympio, vol.6.1965.Nota da
editora.

COARACY, Vivaldo. Todos contam sua vida, memórias de infância e adolescência.Rio de
Janeiro, José Olympio,1959.268p.

Subsídios e informações com vistas às comemorações do Centenário de Vivaldo Coaracy,
folheto preparado por Dona Ada Coaracy em 25/11/1982.

Conversas informais com Dona Ada Coaracy.